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Assembleia Nacional Constituinte Popular e Ética

O Novo Modelo Cultural

Hábitos e costumes não se planejam, eles simplesmente acontecem e se repetem. Certo ou errado? Errado. Na verdade, é muito difícil prevermos a criatividade nas respostas da sociedade, manifestadas em forma de Arquitetura, Literatura, Arte, Música, Pintura, Folclore etc. Mas precisamos compreender que não é apenas esse conjunto de manifestações culturais que representam o que consideramos a Cultura de uma Sociedade. Existem outros hábitos e costumes, que acontecem tão intensamente em nossas vidas, que a miopia do Sistema Capitalista não nos deixou, até agora, analisá -los como as mais genuínas manifestações culturais de uma Sociedade. E tão grande é o automatismo no qual estamos mergulhados que, ao longo da nossa existência, não raro, só percebemos que estamos indo na direção errada, paradoxalmente agindo contra nossos próprios interesses, quando o radar da saúde nos avisa tardiamente que o nosso avião está irreversivelmente numa rota de colisão.

Nos referimos aos nossos hábitos alimentares, habitacionais, de urbanismo, de vida nas cidades, migratórios etc., cujas transformações serão mais largas ou estreitas dependendo dos parâmetros estabelecidos dentro dos demais modelos, e de modo especial, dos Modelos Econômico e Político, que respectivamente antecedem e sucedem ao Modelo Cultural, no campo das necessidades básicas. Depois de uma leitura detalhada das transformações prenunciadas nos demais modelos, e em especial nos Modelos Econômico e Político, teremos uma ideia da dimensão das mudanças que nos esperam dentro do Modelo Cultural.

Com as mudanças nos hábitos alimentares, o Sistema do Mérito pretende, num primeiro momento, a melhoria da saúde da população e o consequente aumento da expectativa de vida. Preferindo o caminho científico, num segundo momento, pretende fazê-lo de modo mais agradável, saudável e menos custoso.

No plano habitacional serão decisivas as contribuições de arquitetos, engenheiros, ambientalistas e outros cientistas vinculados à área. Além disso, o planejamento urbano idealizará ruas compatíveis com as necessidades de locomoção e transporte da Sociedade do Terceiro Milênio, bem como a quantidade e dimensão das cidades; e não apenas no aspecto urbano em si, mas principalmente em relação às suas localizações, densidades demográficas e controle das correntes migratórias para que não venham, no futuro, acontecer as verdadeiras intoxicações urbanas observadas, hoje, nas periferias dos grandes centros urbanos brasileiros.

A Alimentação

Para falarmos sobre como será a Alimentação dentro do Sistema do Mérito, torna-se imperioso tecer algumas comparações com o que hoje acontece no Sistema Capitalista, onde o padrão varia do glutão ao subalimentado, da fome e da miséria absoluta ao mais flagrante e inconcebível desperdício.

É até divertido afirmar que, no limiar do Terceiro Milênio, os homens aprenderam a comer, mas ainda não aprenderam a se alimentar. Comer é simples: basta abrir a boca e jogar a comida no saco estomacal; alimentar-se é bem diferente, pois antes de abrirmos a boca, precisamos lucidamente saber o que o nosso organismo está a carecer em termos de vitaminas, proteínas, sais minerais, lipídios, carboidratos etc., e quais os alimentos que nos podem fornecer esses nutrientes nas quantidades corretas e suficientes para uma saudável manutenção do nosso organismo.

Na verdade, este Capítulo, como todos os demais, traz apenas sementes, que deverão ser aprofundadas pelos leitores especialistas no assunto, no caso, nutricionistas, médicos, profissionais da área de educação física, entre outros.

Atualmente, saber cozinhar é saber fazer uma comida gostosa que nos induza à glutonaria. É ser especialista em produzir obesos e anêmicos, em obstruir nossas artérias com colesterol e triglicerídeo, em intoxicar nosso sangue de glicose, ácido úrico, e até em nos encher de vermes e bactérias, quando não nos matar de infecções intestinais.

O pior de tudo, é que fazemos tudo isso com o argumento de que é mais barato comer em casa do que num restaurante. E de fato, no Sistema Capitalista temos essa falsa impressão, não porque fazer comida em casa seja mais barato, mas porque a alimentação no restaurante, devido às poucas quantidades produzidas e da forma como é fabricada, realmente se torna muito mais cara.

No Sistema do Mérito a alimentação será prioritariamente fabricada por especialistas em restaurantes e em marmitarias, e servida de modo a orientar o consumidor a respeito dos teores de nutrientes contidos em cada alimento e as quantidades sugeridas para que ele saiba decidir acertadamente sobre a escolha da dieta adequada para cada caso. Aliás, no currículo escolar, constará para ser ministrada ao cidadão, desde a idade mais tenra, uma Cadeira de Práticas Educacionais e Alimentares; para que ele, chegando à idade adulta, já saiba se alimentar e não apenas comer. Isso não quer dizer que não tenhamos o direito de optar pela comida feita em casa; mas certamente que, mesmo assim, a orientação técnica deverá ser observada, de tal modo que nem hajam desperdícios nem prejuízos para a saúde do consumidor.

A Habitação e Moradia

Sob a égide do Sistema do Mérito, indiscutivelmente ocorrerão mudanças profundas no padrão habitacional e nos diversos tipos de moradia. A interferência do Estado nessa atividade será grande, objetivando evitar, além da ocupação desordenada do solo, a construção de casas incompatíveis com as necessidades das gerações presentes e futuras.

Será condição imprescindível, para construção de qualquer imóvel residencial ou comercial, a chancela de especialistas como: arquitetos, engenheiros, ambientalistas, sanitaristas, bombeiros, entre outros, de tal sorte que as habitações sejam construídas, observando-se, criteriosamente, uma boa localização, uma bela estética, o conforto interno e externo, o eficiente aproveitamento das energias naturais para iluminação, calefação e ventilação, a segurança e o bem-estar dos moradores que a idealizaram, como também dos seus sucessores ou dos que nela algum dia vierem a morar. E aqui, temos que pensar em pelo menos dez gerações à frente.

O Crédito Pleno e Público, que também será destinado à construção, terá condicionada a sua liberação ao cumprimento dessas exigências, de tal sorte que nada se faça em prejuízo do interesse coletivo.

Quanto ao tipo de moradia, alguns haverão de preferir a casa individual; outros preferirão as construções em condomínios fechados, enquanto outros mais optarão por prédios de apartamentos ou simplesmente morarem em “apart-hotéis”. A escolha será livre; o que não poderá haver é gastos excessivos, desperdícios, ou construções desordenadas de masmorras, palafitas, mansardas, tugúrios e favelas, hoje tão comuns nos guetos e periferias dos grandes centros.

Nas áreas destinadas a cada prédio residencial, sejam eles de convívio coletivo ou individual, serão reservados espaços suficientes para atividades de jardinagem e reflorestamento. Na elaboração dos projetos de loteamentos, onde serão construídas as novas residências, as ruas serão amplas ao máximo, de modo a permitir fluência ao tráfego e estacionamentos amplos, e não apenas para os veículos convencionais atuais, mas também para os possíveis avanços tecnológicos que advirão no campo dos transportes.

Mais uma vez, deixamos a complementação deste Capítulo para os especialistas no assunto, os quais até hoje não foram contemplados com a liberdade de ação necessária para mostrarem os seus talentos e criatividade; agora, no entanto, sob a égide do Sistema do Mérito, receberão essa tarefa como um grande e motivador desafio.

As Cidades

São muito comuns nos programas jornalísticos da Televisão, as notícias sobre inundações das nossas cidades. Por que será que isso acontece com tanta freqüência? Ora, porque as nossas cidades estão construídas às margens dos rios. E sabem por que estão construídas às margens dos rios? Porque essa foi a herança cultural dos nossos antepassados que viviam nas cavernas. Vejam só, foi o homem das cavernas ao descobrir a agricultura e decidir migrar do sopé das montanhas, onde tinha a caverna como habitat, para as margens dos rios, onde as terras para a prática da agricultura eram mais viáveis, e isso, pasmem, nos últimos dias do Sistema Primitivo e nos primeiros do Sistema Absolutista quem nos legou o projeto de construção das nossas atuais cidades. Imaginem que de lá para cá ninguém tomou a iniciativa de corrigir esse hábito, e os resultados estão aí: cidades mais quentes, expostas a freqüentes inundações, rios poluídos, impactos ambientais gravíssimos, problemas de toda sorte etc.

Para agravar ainda mais o quadro, a expansão das nossas cidades, ainda hoje, não seguem uma lógica urbanística. Ela ocorre como consequência do sedimento de uma migração desordenada dos sem-terra, sem-pão e sem-teto, fugidos da total falta de assistência dos programas governamentais, e que é despejado nas suas periferias, ensejando o surgimento de favelas monumentais, onde se agravam os problemas de saneamento básico, saúde, educação, violência etc.

Em outras palavras: o arquiteto do plano piloto das nossas atuais cidades foi o homem das cavernas, e os arquitetos que os sucederam e sucedem até hoje, são os flagelados da corrupção e do descaso governamental, mais conhecidos como os sem-terra, sem-teto, sem-pão, bóias-frias etc. O seu “modus operandi” é muito simples: chegam aos terrenos baldios, sob os viadutos, em qualquer outro lugar da periferia, e ali armam seus barracos, constroem as suas gambiarras de energia e água, até o dia em que começam a receber a visita dos políticos para lhes “fazer a caridade” de um calçamento da rua em troca de votos. Assim se constrói cidades dentro do Sistema Capitalista.

No Sistema do Mérito, as cidades serão previamente planejadas, e somente após a conclusão de toda a infra-estrutura básica começa-se a edificação dos prédios comerciais e residenciais; tudo em estrita observância dos melhores padrões ambientais, técnicos e científicos. Serão construídas de preferência nas regiões mais elevadas, onde o clima é mais ameno e o impacto ambiental possa ser produtivo.

A Arquitetura, a Literatura, as Artes, a Música, a Pintura, o Teatro, o Folclore e os Esportes

Com o advento do Sistema do Mérito, as manifestações culturais tanto no campo da Arquitetura como da Literatura, das Artes, da Música, da Pintura, do Teatro, do Folclore e dos Esportes, durante a primeira fase, apenas refletirão os desejos e aspirações contidos pela censura e pela mais absoluta falta de condições econômicas e financeiras indispensáveis à sua livre e total expressão. Daí porque não poderemos considerá-las como manifestações culturais genuinamente concebidas dentro do novo paradigma, pois, na verdade, as suas inspirações aconteceram ainda sob a tutela do Sistema Capitalista.

Muito embora o novo Sistema já comece impondo novas regras, o “feedback” da Sociedade, a ser registrado como manifestações culturais próprias e genuinamente pertencentes ao Sistema do Mérito, demandará algum tempo até que elas tenham completamente delineado o seu perfil. O que se pode antever, porém, é que as manifestações culturais de uma Sociedade que ainda se acha no estágio atrasado da busca de atendimento de Necessidades Fisiológicas e de Segurança como é o caso da Sociedade atual, que se acha submetida à tutela do paradigma SOCOCA decerto serão completamente diferentes daquelas de uma outra cujo foco é o atendimento das Necessidades de Auto Estima e Auto Realização.

Algumas tendências também poderemos anunciar. Por exemplo: a Arquitetura vislumbrará o bem estar das gerações presentes, mas incluirá nos seus projetos os interesses das gerações futuras; a Literatura registrará o “boom” de transformações e mostrará a Sociedade antes, durante e depois da transição, desde a fase do estarrecimento ante as imensas oportunidades, à do medo de perdê-las, até à fase da sobriedade e da lucidez, quando os propósitos do Sistema se mostrarem bons e eficazes; as Artes, a Música, a Pintura e o Teatro caminharão do campo emocional para o mental, do tangível para o mais abstrato e, nessa trajetória, deixará claro o que é de um e de outro paradigma; o folclore, como sempre, contará as suas lendas e nelas nos mostrará o atraso em que nos encontrávamos, bem como os nossos lenitivos, raros momentos de lazer diante das injustiças e da violência institucionalizada pelo Capitalismo; nos esportes, veremos decair o interesse e às vezes até o fanatismo pelas práticas que estimulam o espírito de competição entre os seres humanos, enquanto ascenderão aqueles que objetivam o aumento da longevidade, da saúde e da beleza física do corpo somático. Isso porque o homem se conscientizará de que está na hora de erradicar o hábito da “antropofagia energética”, que ele inconscientemente pratica nas ocasiões em que esses esportes acontecem, e em que ele se envolve, na condição de torcedor.

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